OBRA LITERÁRIA ALÉM DA PELE

 MAIS QUE APARÊNCIA, SOMOS ESSÊNCIA!

Além da Pele é uma obra literária produzida por alunos da Educação de Jovens e Adultos (EMEJA) da EREM Joaquim Nabuco, localizada no bairro de São José, no Recife. A obra aborda, de forma direta e sensível, temas como racismopreconceito e as diversas camadas sociais que moldam a experiência individual e coletiva.

A narrativa se desenvolve a partir do diálogo profundo entre duas estudantes que travam um debate intenso sobre realidades frequentemente silenciadas pela sociedade. Cada uma defende de maneira firme seu ponto de vista: enquanto uma jovem relata vivências pessoais sobre família, orientação, base sólida e afirmação de identidade, a outra questiona estruturas sociais, argumentando sobre como a falta de informação, o medo e a desigualdade histórica alimentam preconceitos ainda presentes no cotidiano.

O embate entre as duas não se resume a discordâncias; ele revela visões de mundo distintas, moldadas por trajetórias, dores e aprendizados diferentes. O debate cresce em profundidade à medida que as personagens confrontam conceitos como privilégio, identidade, representatividade e responsabilidade social. Apesar das divergências, ambas buscam compreender melhor a realidade uma da outra, mostrando que o conflito pode ser um ponto de partida para o entendimento — e não um obstáculo.

Com uma linguagem questionadora e educativa, a obra busca provocar reflexões e incentivar um debate saudável, especialmente entre jovens e comunidades das periferias e regiões menos assistidas pelo poder público. Ao acompanhar o diálogo das duas estudantes, o leitor é conduzido a refletir sobre o poder da consciência, da empatia e do diálogo na construção de uma sociedade mais justa, plural e humana.

A força de Além da Pele está justamente na capacidade de transformar uma conversa tensa, porém necessária — em uma ferramenta de aprendizagem e de transformação social.

Romário Silva - Ilustrador e roteirista

Quando recebi o convite da professora Geize Araújo para produzir um trabalho literário, a proposta inicial não era exatamente Além da Pele. Naquele período, a escola estava desenvolvendo atividades sobre Racismo Ambiental, e foi nesse contexto que a professora me apresentou a ideia. No entanto, deixei claro desde o início que não desejava seguir a mesma linha do documentário que já estava sendo produzido pelo professor Ricardo.

De modo geral, participar desse projeto foi ao mesmo tempo um desafio e uma grande alegria. Tive a oportunidade de contribuir na construção do roteiro, realizar as ilustrações e ajudar a desenvolver os diálogos — elementos que, para mim, são o que realmente dão identidade à obra.

Em minhas conversas com a professora Geize, eu sempre manifestava o desejo de que Além da Pele não seguisse o mesmo caminho de diversas cartilhas sobre racismo e preconceito. Queria algo diferente, algo que permitisse ao leitor refletir e tirar suas próprias conclusões. Durante os encontros e diálogos com os estudantes da escola, percebi que muitas pessoas possuem visões e opiniões diversas, criativas e “fora da caixinha”, sem necessariamente estarem presas a discursos políticos ou ideológicos.

Essa pluralidade de pensamentos foi fundamental para orientar o tom da obra, que busca justamente abrir espaço para questionamentos, escuta e construção de consciência — sem impor respostas, mas provocando reflexão. Algo que aprendi ao ler o livro O Sentido da Vida, de Bradley Trevor Greive, é que as perguntas são melhores que as respostas — são elas que movem o mundo, e não as respostas prontas. Permitir que o leitor reflita e o deixar decidir por si mesmo é um ato de liberdade e democracia.

Outro ponto que me fez mergulhar de cabeça no projeto foram as pessoas envolvidas: gente humilde, disposta a construir coletivamente, sem estrelismo ou conflitos que, muitas vezes, acabam contaminando projetos desse tipo. De fato, foi prazeroso trabalhar com a professora Geize Araújo e com as protagonistas da história, Rafaela e Maria dos Prazeres, que gentilmente cederam suas imagens e contribuíram com suas falas e pensamentos distintos.

Maria dos Prazeres – Pesquisa e texto. Rafaela Ferreira – Pesquisa de ambiente. Geize Araújo – Correção textual e coordenação. Romário Silva – Roteiro, diálogos e arte. Izabel Ouriques – Coordenação geral




Comentários

Midia disse…
Que trabalho incrível! É muito bonito ver uma obra que nasce dentro da escola e que trata temas tão profundos com tanta sensibilidade.
Oscar disse…
Romário, Geize, Izabel e toda a equipe… vocês entregaram algo muito além de um simples livro. É uma ferramenta de reflexão e empatia. Que essa obra alcance muita gente!